RECTE REMPUBLICAM GERERE

domingo, 18 de julho de 2010

Jorge Antonio de Barros: 18 de julho de 2010


Cabral pede desculpas, mas não vai a enterro de Wesley


O governador Sérgio Cabral acertou ao cancelar uma carreata em Santa Cruz, mas errou ao não enviar sequer representante ao enterro do menino Wesley, de 11 anos, que foi morto por uma bala perdida durante confronto entre PMs e traficantes em Costa Barros, subúrbio do Rio. Imagine que situação constrangedora seria para cidadãos mais conscientes ver fotografias de Cabral acenando e sorrindo, enquanto uma parte da cidade estivesse em luto com a morte injustificável de uma criança, que estava em aula numa escola no meio do fogo cruzado. Portanto, meus parabéns aos estrategistas políticos de Cabral.

Por outro lado, dou meus pêsames aos conselheiros políticos que não são capazes de orientar seus clientes a estarem presentes em locais públicos como um cemitério, para levar uma palavra de conforto a parentes de vítimas da violência, como foi o caso de Wesley. E não sou o único a pensar assim. O pai de Wesley, Ricardo Freire, se queixou de ter sentido falta da presença de Cabral, de uma autoridade estadual que fosse, para transmitir apoio à família, nesse momento de tamanha dor, diante da morte mais absurda e inaceitável - a morte por uma violência absolutamente gratuita e desnecessária.

- Meu filho é só mais uma estatística do governo. O governador não liga para a gente - disse o pai de Wesley, no enterro do único filho, ao comentar a ausência de um representante do poder público no cemitério.

Leia aqui no meu Twitter a frase mais comovente do pai do menino, que resultou em mais de 150 reproduções por internautas, marca similiar apenas quando grandes usuários do microblog escrevem algo.

Infelzmente no Brasil as autoridades ainda não aprenderam que é importante estar no local da tragédia, sobretudo quando elas e seus executivos são de alguma forma responsáveis pelo que aconteceu de ruim, geralmente a pessoas pobres e já acostumadas a viverem no vácuo das decisões políticas. É muito importante o homem público não perder a sensibilidade de que em alguns momentos é preciso levantar-se da cadeira e deixar o conforto dos gabinetes bem refrigerados e ir às ruas ver como o povo está. Não é preciso buscar exemplos antigos. Ontem mesmo o ministro do Interior francês, Brice Hortefeux, foi até o local de manifestações violentas em Grenoble e disse aos moradores que a situação já está sob controle. Na nossa cultura, algumas pessoas acham que isso é demagogia. Já eu acredito que para quem vive um drama qualquer aceno é bem-vindo, desde que a pessoa não seja arrogante.

Quando o menino João Hélio foi arrastado pelas ruas e assassinado por um bando de facínoras, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, e o então comandante-geral da PM, coronel Ubiratan Angelo, foram à missa de sétimo dia, na Candelária. De folga, eu os encontrei lá e depois segui na caminhada de protesto na Avenida Rio Branco. Na ocasião, elogiei as autoridades por seu feito, que não me lembrava de ter visto em gestões anteriores. Era o início do governo Cabral.

Agora, portanto, me sinto livre para manifestar minha completa decepção com a atitude do secretário de Segurança, que parece ter algo mais importante a fazer do que estar presente numa cerimônia fúnebre de uma vítima da violência como essa. É verdade que poderiam até passar a exigir que ele estivesse presente em todos os enterros de vítimas da violência na cidade e não sobraria mais tempo em sua agenda. Mas quando não pudesse ir que enviasse um representante, um chefe da Polícia Civil ou da Polícia Militar.

Mas o caso é um pouco mais grave. Além de o governo do estado não ter enviado qualquer representante ao enterro do pequeno Wesley, traçou como estratégia política o silêncio, na tentativa de abafar mais um caso de violência que acontece na Zona Norte da cidade. Afinal, como já disse Beltrame, só repercute mesmo tiro em Copacabana.

Desde cedo as assessorias de imprensa do Palácio Guanabara e da Secretaria de Segurança não foram encontradas pelos jornalistas. Diante da cortina de silêncio que percebi que estava sendo montada, recorri ao Twitter (www.twitter.com/reporterdecrime) para manifestar minha indignação com a morte de Wesley e com a tentativa absurda de ignorarem o caso. Após minha pequena campanha - que atraiu a atenção dos internautas e de pesquisadoras como Ilana Casoy - o governador licenciado decidiu se manifestar, no final da tarde.

A assessoria de imprensa do Palácio Guanabara enviou o seguinte email:

"Cabral lamenta a morte do menino Wesley e diz que a pacificao das comunidades vai continuar

O governador Srgio Cabral disse neste sábado (17/07) que a estratégia da operação policial, que resultou na morte do menino Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade, de 11 anos, estava errada.

- Só se faz uma operação como aquela, com troca de tiros, luz do dia, com um Ciep funcionando, no meio de um confronto como esse, se for absolutamente impossível evitar. Não era o caso. Poderia ter sido feito em outro momento. Houve um erro na operação - disse o governador.

Cabral lamentou profundamente a perda de uma vida e reafirmou que o Governo do Estado seguir firme na luta pela pacificação:

- Preciso, antes de mais nada, pedir desculpas esta famlia. Sou pai de cinco filhos e posso imaginar o que essa mãe, esse pai, enfim, os seus amigos e familiares estão sentindo. A melhor maneira de homenagear o Wesley continuar a luta pela pacificação.

De acordo com Sergio Cabral, o Governo do Estado não abre mão de seguir firme na luta pela retomada dos territórios dominados pelo poder paralelo. Ele acrescentou que, graças ao trabalho feito até aqui, muitas comunidades do Rio já não sofrem com episódios como este.

- Hoje já são milhares de meninos que não sofrem, que não temem o que o Wesley temia, os tiros, que ele pôs até em uma redação. Vamos continuar trabalhando para pacificar as comunidades do Rio - disse Cabral."

Cabral afirmou timidamente que a PM errou, mas sua assessoria esqueceu de coordenar a comunicação do episódio. Minutos antes o porta-voz da PM disse que a operação estava certíssima. Conversa de maluco, não? O comandante-geral da PM exonera o comandante do batalhão cujos policiais participaram do confronto que matou Wesley, o porta-voz da PM diz que a operação estava ok e o governador diz exatamente o contrário, sem saber o que havia dito o oficial da PM. Só por aí já dá para termos uma ideia do fim de festa que estamos vivendo na área de segurança, apesar de o projeto de pacificação ser bem-sucedido em algumas comunidades.

Quantos Wesleys serão necessários para que a socieadade se convença de que a mobilização popular é o caminho para controlar a violência urbana no Rio? Quantos mais serão precisos para que a gente perceba que o asfalto precisa estender a mão para a favela e ajudar a resgatar a paz naquelas comunidades, sem que essa iniciativa seja apenas do governo?


Matéria original em: http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/reporterdecrime/posts/2010/07/18/cabral-pede-desculpas-mas-nao-vai-enterro-de-wesley-309066.asp

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